“Poesia: me agarro a isso como a uma tábua de salvação”


WISLAWA SZYMBORSKA  – 1923-2012, nascida em Bnin/Kórnik e falecida em Cracóvia (Polônia), Poetisa agraciada com o Prêmio Nobel em 1996 – seu nome pronuncia-se mais ou menos “Vissuáva Chembórska” –
ensina-nos sua tradutora em Português Regina Przybycien, cujo nome confesso não saber como pronunciar…são consoantes demais juntas! –
algo como pré-zi-bis-quén

Pois bem, ei-la: poetisa do entre-guerras na Europa e que viveu quarenta anos sob o regime totalitário na Polônia. Em “Poemas”, seleção, tradução e prefácio da professora Regina, ficamos sabendo mais do que a justificativa dada pelos organizadores do Nobel, quando premiaram Wislawa como o segundo prêmio Nobel de literatura a um poeta polonês em dezesseis anos – o primeiro havia sido entregue em 1980 a Czeslaw Milosz.

Dizem os julgadores do Nobel que Wislawa mereceu o prêmio em 1996 porque “sua poesia com irônica precisão permite que o contexto histórico e biológico da autora venha à luz em fragmentos de realidade humana”.

Superada as barreiras dos “grupos consonantais” – como constata a tradutora, o mundo se abriu à poesia polonesa e os dois poetas provam, sim, que “a Polônia é o país da Poesia”. Além de ser a terra do Papa João Paulo II e do compositor Chopin!

A nossa poetisa premiada, já o fora antes do Nobel, agraciada como prêmio Goethe, na Alemanha (1991), com o Herder, na Áustria (1995) e com o prêmio do Pen Club polonês no mesmo ano do Nobel (1996).

A professora Regina nos informa que Wislawa, assim como outros poetas de sua geração, “respondeu à sua maneira às pressões da época, mas todos mostram sua profunda consciência da falência de uma concepção evolucionista da história, na qual a humanidade, movida pela razão e pelo progresso, caminharia para estágios cada vez mais avançados de civilização. Testemunhas das barbáries do século, esses poetas [Wislawa, Milosz, Z Herbert e Tadusz Rózewicz] refletem sombriamente, muitas vezes ironicamente [como destaca a ementa do Nobel], sobre a condição humana – conclui a professora Regina.

“O eu lírico de Wislawa Szymborska” – é aqui apontado por Regina Przybycien como “fruto do acaso na cadeia evolutiva e se indaga: e se fosse diferente?”

 

Sou quem sou.
Inconcebível acaso
como todos os acasos.

 

Fossem outros
os meus antepassados
e de outro ninho
eu voaria
ou de sob outro tronco
coberta de escamas eu rastejaria.

Na poesia da jovem e relativamente desconhecida poetisa (1962, então com 39 anos), Regina vê a semente irônica retomada trinta anos depois. São dois trechos de poemas: o 1º. “Recital da Autora” está o germe de “Alguns gostam de poesia” – para este leitor uma jóia de definição do poético quando o imperativo da pressa e do algoritmo pós-moderno da escrita automática nos recorda a força da Poesia.

  1. Musa, não ser um boxeador é literalmente não existir.
    Nos recusaste a multidão ululante.
    Uma dúzia de pessoas na sala,
    já é hora de começar a fala.
    Metade veio porque está chovendo,
    o resto é parente. Ó Musa.
  2. Alguns gostam de poesiaAlguns –

ou seja nem todos.

Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Wislawa+PoetaNobel

A história da tradução destes poemas contidos no livro que agora tenho em mãos é emocionante. A professora Regina Przybycien literalmente teve na poesia uma ponte que a permitiu reencontrar a língua de sua infância. Deixo que ela lhe conte, leitor:

“A história das traduções aqui apresentadas é longa. Deparei pela primeira vez com a poesia de Szymborska quando ela ganhou o Nobel em 1996. Eu fazia um curso intensivo de língua polonesa na Universidade Iaguielônica de Cracóvia [a mesma onde Wislawa havia estudado literatura e sociologia, anos antes…]. Minha mãe falecera duas semanas          antes da minha viagem à Polônia. Nessas circunstâncias, estudar a língua materna que me embalara  na infância e que eu não falava havia quarenta anos causava-me emoções mistas. A linguagem do cotidiano, das coisas concretas, me acalentava, mas eu tinha dificuldade em aprender a linguagem intelectual, das abstrações, que me parecia fria, sem alma. Então as professoras do curso nos apresentaram alguns poemas de Szymborska. A princípio só conseguia lê-los com muita dificuldade e com o auxíio da tradução americana. Com o correr do tempo, fui desenvolvendo a capacidade de leitura em polonês e comecei a traduzir alguns poemas para mim mesma. Como exercício de leitura. Ao longo dos anos fui acumulando tentativas, algumas que considero bem-sucedidas, outras fracassadas, de tradução. A poesia de Szymborska foi a ponte que me  permitiu unir a língua do sensível, língua lúdica de minha infância, com a língua lógica dos conceitos e abstrações. Traduzi-la foi um exercício de tentar trazer para a língua portuguesa essa combinação de sofisticação intelectual com um tom absolutamente coloquial.”

Quem quiser saber o resto da história, que consulte o belo prefácio da professora Regina, sabendo que “toda tradução é uma tentativa de recriação em outra língua, com outros sons e outros recursos poéticos, do sentido do original”. Consciente, Regina sabe que este é o principal desafio do tradutor e que a este se sobrepõe como uma camada ainda mais dura o de “transportar para outra língua os jogos que são feitos [por ela, Wislawa e por tantos outros poetas] com as expressões idiomáticas, os ditados e as canções populares”

 Nesta primeira amostra, dois poemas de Wislawa, além do que já publiquei anteriormente aqui nesta página (Alguns gostam de poesia) recentemente.

  1. Sob uma estrela pequenina (fotos)
    Parte 1 Poema Wislawa_Parte1
    Parte 2 Poema Wislawa_Parte2
  1. Recital da autora
    ***************

Musa, não ser um boxeador é literalmente não existir.
Nos recusaste a multidão ululante.
Uma dúzi de pessoas na sala,
já é hora de começar a fala.
Metade veio porque está chovendo,
o resto é parente. Ó Musa.

As mulheres adorariam desmaiar nesta noite outonal,
e vão, mas só ao assistir a uma luta colossal.
Só lá as cenas dantescas.
E os ascenso aos céus. Ó Musa.

Não ser boxeador, ser poeta,

Estar condenado a duras florbelas,
por falta de musculatura mostrar ao mundo
a futura leitura escolar – na melhor das hipóteses –

Ó Musa. Ó Pégaso,
anjo equestre.

Na primeira fila um velhinho sonha docemente
que a finada esposa ressuscitou e
assa para ele um bolo com passas.
Com fogo, mas não alto, para o bolo não queimar,
começamos a leitura. Ó Musa.

****

TradutoraProfessora Regina Przybycien
Regina tradutora: “a ponte entre a língua do sensível, língua lúdica da minha infância, com a língua lógica dos conceitos e abstrações…”

A professora Regina Przybycien nasceu em Curitiba, em 1949. É doutora em literatura comparada pela UFMG, tendo lecionado em Ouro Preto e na UFPR. É professora visitante da Universidade Iaguielônica de Cracóvia. Traduz literatura polonesa e inglesa e realiza pesquisa sobre poetisas (ou como gostam atualmente de dizer poetas mulheres), tendo vários ensaios publicados. É organizadora da coletânea “Poetas Mulheres que pensaram o século xx” (livro de 2008).
*****
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Fonte: Szymborska, Wislawa. Poemas / Wislawa Szymborska ; seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien – S. Paulo : Companhia das Letras, 2011. ISBN 978-85-359-1957-8. Poesia polonesa.

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