Da série “mexicanas” (iii)


Mexicanas (3) – Crônica – Poema em prosa.

ERA UMA VEZ uma menina e seus pais e um viajante – um homem na casa dos seus sessent’anos e alma de menino, doravante “Caminhante”.
Entraram na mesma van que os levaria do aeroporto ao hotel com o Caminhante. Estar alhures e no México, ter viajado com os versos de António Machado ressoando na mente, reverbera ainda mais quando o cansaço nos ilude entre sono e paisagem, entre sonho e realidade.
Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
O Caminhante viu muitas estradas e lateja em suas têmporas: “Caminhante, são teus rastos; o caminho, e nada mais”… E como em The Road, taxativo: “Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar…”. Como andam pai e filho na estória que tomou todo o tempo de vôo – a companhia do apocalíptico McCarthy…

 

CormacMcCarthy_AEstrada2
(c)ilustr. site do filme The Road.

Voou sobre os mares, tomou um paquete em Algeciras e uma barquinha no rio São Francisco; o Caminhante andou voando; e sente-se alhures dois dias após deixar a savana em que vive. Heureux qui comme Ulysses a fait um beau voyage… Georges Brassens toca na vitrola instalada na cabeça do Caminhante (vitrola onde repassa canções antigas, quando quer dormir ou quando estar a despertar…).
O Caminhante está a caminho da velhice, lembra-se de tantas coisas que não quer e não se recorda do que quer, pelo menos não na rapidez com que quer – demorou uma era para lembrar-se do nome do músico francês que lhe povoou a partitura da juventude com a primeira língua estrangeira que aprendeu. Ele tem fé; certa mística o acompanha desde tenra idade; leu muito mas esqueceu quase todos os enredos. A trama de sua vida é complexa e mais se assemelha a uma daqueles cobertores que viu na Pensylvannia, anos atrás… Quilt! – Isso! Aquelas colchas de retalhos das mulheres Amish que tanto lembram o cobertor velho que lhe dera sua avó paraibana!

Só tem agora o Caminhante ouvidos para a menininha – também cansada; provavelmente exausta de ter que se parecer adulta; Alberto Da Costa e Silva está ao seu lado na van, estranhamente recordando que em breve a meninazinha estará no “curral dos adultos”. Por ora, sonha. Sonha com a praia e a nomeia – areia.
– Papai, chegamos à areia? Arena, areia, cimento da vida; la arena
Desperta, enquanto a van continua balançando-se no asfalto já úmido da chuvinha fina da temporada, ao cair da tarde, a caminho do destino – banho quente e cama estão nos planos do Caminhante, mas la arena o arranca de seu torpor.
– É já la arena, Papá?!

Criança na Praia (c)LucianaMisura
(c) Ilust./foto blog luciana.misura.org

A estrada (The Road) de que leu no avião é uma estrada solitária e apocalíptica. Cormac McCarthy conduzia-o pela estrada afora… Quase não dormiu entre uma turbulência e outra – está aqui, a centenas de milhas de casa – centenas de anos-luz de sua origem. Savana e mar se encontram quando repousa, mas a voz da menina o acalenta ao longo do sono profundo. Desperta ao amanhecer em outro cenário. Há o mar. Há o mar caminho de Augusto (o Schmidt), o mar “rude e profundo”… aquela obra de Zeus onde reina Poseidon; desde a Criação e seu trabalho no segundo dia; quiçá, antes quando a Sabedoria pairava sobre a superfície das águas. E viu o Caminhante que era bom – da cosmogonia à realização.

Como Ulisses, viajante de epopéias antigas, pensa o Caminhante que no saldo final a viagem foi boa e assim será para sempre. Espera que um cão (ou um gato) venha, ao retornar à casa, reconhecer-lhe a cicatriz em seu pé direito e achegar-se com ternura ao dono que volta à casa.
– Chegamos à arena, Papai?
Se o mar para os poetas é devaneio e perdição, é caminho e é destino; para a menina é construir castelos na areia. Para ela, o mar é tudo isso: la arena… Como a vida, ao fim de tudo.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

E ao retornar, saberá o Caminhante que “ao andar faz-se o caminho, e ao olhar-se para trás vê-se a senda que jamais se há-de voltar a pisar…”
Retornará. E ao ar marinho, há o viajante de preferir voltar mais experiente à casa ora distante, ao fim desta temporada, com uma garrafinha mental plena da areia; da areia em seus pés, na seca doçura de sua aldeia, no cerrado – sua casa erigida na savana, eis onde planeja viver o resto de seus dias, mais experiente e, nem por isso, menos sonhador. Caravelas em noites de leves sonhos. Eia, avante!… Ao mar dos sonhos como “embarcado em seco”; pois é o que terá aprendido a lição de Machado:
“Caminhante, não há caminho, somente sulcos no mar.”
Adiós, Caminhante. Au revoir.
****
(c) Ilustrações. Do blog de luciana.misura.org e filme “The Road”, baseado no livro homônimo de Cormac McCarthy. Obrigado, poeta Luiz de Aquino, pela revisão do texto, só não aceitei (como de hábito) a ortografia do Novo “Acordo” Ortográfico.

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