Pequeno diário de uma viagem ao Chile (síntese)


A SUPREMA ARTE seria viajar em torno do próprio quarto. Se a frase atribuída a Xavier De Maistre fosse verdade absoluta, as companhias aéreas estariam em maus lençóis e os guias de viagem inexistiriam como best-sellers. Desde o famoso Baedecker que a tantos ilustres viajantes instruiu, até o atual Guide Michelin, o fato é que as pessoas mais e mais se animam a enfrentar toda espécie de transtorno para estar alhures. Viajar tem a aura de transformar o viajante por dentro e por fora.

O fato é que há uns poucos que viajam como se frequentassem um curto curso de relações internacionais, outros, de artes; há alguns que o fazem com o fito de ganhar em sensibilidade, através do relacionamento com as pessoas de outras culturas que encontrará ao longo da viagem.

Nesse caso, o Chile poético – sem direta referência (quase óbvia aos vinhedos) pode ser uma opção das mais interessantes. Eu e minha mulher – já considerados idosos, mas cheios de energia e curiosidade por outras culturas – línguas, hábitos, música e literatura diversas da nossa – viajamos ao Chile por nove dias sem visitar um vinhedo sequer. Nem por isso, voltamos sedentos da cultura, ao contrário.

Há duas importantes decisões a tomar quando se prepara uma viagem assim. Primeiro, informar-se sobre o país que se quer visitar. Lembro-me que quando fui aos EUA pela vez primeira, cheguei a ler dois livros interessantes e que, mesmo distantes do atualíssimo guia de Kátia Zero ou as dicas elegantes de Glória Kalil, valem como verdadeiros “Guias”: livros de Joaquim Nabuco e Albert Camus.

As visões da Nova York que encontrei jamais passariam pela poética dos enredos criados por Nabuco ou, quem sabe, por Albert Camus (e suas viagens aos Estados Unidos!).

Pois bem, vou seguindo em vôo tranquilo com o Maurois que no relato viaja pelo Brasil. Encontramo-nos com meu poeta amado (membro da tríade dos poetas de quem pretendo falar no Chile – Augusto Frederico Schmidt ) – dou-lhe a palavra:

Domingo. Numerosas visitas de jornalistas. Admiro seu conhecimento das letras francesas, sua agilidade de espírito, seu gosto pelas idéias. Quase todos me fazem perguntas sobre Alain, como quem o leu bem. Um deles me diz que uma brasileira, Violette de Alcântara, fez uma conferência semana passada sobre Alain e Maurois. “Domine num sum dignus”, mas ser associado a meu mestre me agrada. Muitas perguntas sobre o existencialismo, sobre o Maritanismo, pois há aqui (dizem-me) “maritanistas e neomaritanistas” [Jacques Maritain que ainda grande influência exercia entre os católicos brasileiros, como em Alceu, Corção etc.]. Vou à praia, onde banhistas neste inverno tropical, tomam sol. Depois o poeta Frederico Schmidt me vem buscar para me levar à casa de Luísa Miguel Pereira, a biógrafa do escritor brasileiro Machado de Assis. No caminho, Schmidt me conta que Mauriac, que ele encontrou em Paris, lhe disse: “O senhor é o Barnabooth de Larbaud.”
“Diagnóstico bastante exato, pois este poeta da ansiedade amorosa e da obsessão da morte é também um homem de negócios que pilota com segurança, nestas ruas íngremes, seu grande carro americano.”

O motivo original de minha ida ao Chile foi, primariamente, atender a um convite para fazer uma palestra sobre a “Tríade de católicos-poetas do Brasil – instantâneo de poesia falada com poemas de Augusto Schmidt, Jorge de Lima e Murilo Mendes” , em evento internacional na Universidade de Santiado do Chile (USACH).

Não ficando restrito a esse compromisso, construímos – minha mulher e eu, uma agenda de flanêrie pela cidade de Santiago e uma curta visita a Valparaíso.
As impressões dessa viagem são de modo maior guiadas pela literatura, sobretudo sobre a poesia, a gastronomia e a convivência e observação de um casal sobre um país vizinho que inicialmente não fazia parte dos planos de ambos como destino turístico. Com Maurois, sigo voando:

– “…o avião se esgueira entre cumes nevados. Não sobrevoa os Andes, ele os escala; vai de garganta em garganta, de corredor em corredor.(…) Quando se aperta o botão do oxigênio, uma corrente gasosa, de sabor metálico, penetra na boca, um pouco fria, e vai acalmar o coração e os pulmões. É uma impressão agradável e estranha. Nenhum sentimento de temor; uma vaga beatitude.”

E como o bebê – a criança que dormita e recusa o oxigênio que lhe oferecia a mãe, no relato de Maurois, nem carecemos de oxigênio a enfrentar os solavancos que as térmicas da tarde finda deixaram de herança à noite – e tal como no caso de André, a leitura me traz certa beatitude “pois a travessia dos Andes dura pouco e logo pousamos em Santiago”. Eram 0h40 do dia 07 de outubro.

“El hombre imaginario” de Nicanor Parra esperava-me dentro do meu ansioso coração de viajante.

O personagem que viaja conosco, dizem, é fruto da imaginação como no poema do chileno. Só usando a imaginação os casais costumam voltar de uma viagem apaziguados de alguma rusga que nutriam antes da viagem. Mas o homem imaginário que olha para o país, a cidade, a vila visitada para dela extrair estórias que há de contar depois, com fatos ou com a pura imaginação sobre o destino visitado.|


Santiago de Chile – 07 e 08 de outubro, 2015. A ida ao Centro Cultural de La Moneda, no palácio de mesmo nome foi a nota alta do dia. Houve um episódio que novamente me trouxe André Maurois à pauta, quando ao degustar nosso café-da-manhã, no balcão de um bar no Paseo de Fulnes, pude ver uma partida de futebol em uma “cancha” improvisada pela Coca-Cola. A vegetação (plátanos e outas espécies) me fizeram lembrar que Maurois em 1947 já pensava em Paris ao ver os arredores da Praça – a diferença de agora é que o longo espaço, antes destinado a estacionamento, é agora um amplo espaço de lazer, de pedestres, ao mesmo tempo cortado por um grande boulevar… Mas, sim, ainda o mesmo ar francês que Maurois destacara – como se evocasse (mesmo que “vagamente”) a França, Annecy ou Monpazier.
À troca da guarda, sugerida por um amigo (ex-oficial da FAB), decidimos não comparecer (dá-se sempre em dias pares), em virtude do despertar tardio; mesmo no segundo dia (08/10) em que recolho essas notas no processador de textos.
Mas o “círculo nevado dos Andes” esse se não visível mais de toda a cidade – como há 68 anos atrás relata Maurois, é ainda possível em lugares como na proximidade do Museu Nacional de Belas Artes, em que o toque mágico ainda enobrece a paisagem urbana; apesar de toda a vertigem que o trânsito possa causar ao visitante. E é um trânsito ordenado, comportado até comparado ao das metrópoles brasileiras. Reservaram os chilenos, sabiamente, espaços amplos para pedestres e para ciclistas; há, no todo, um respeito mútuo entre os que dirigem e os que caminham pela cidade… Em geral, ouvi poucas buzinas e menos freiadas bruscas e nervosismo no trânsito, tendo caminhado muito nestes dois dias…

Sob a motivação dos versos de Parra, sigo pela cidade.
Já agora sãos os “aforismos chilenos”:
“Y el viajero que mira para atrás
corre el serio peligro
de que su sombra no quiera seguirlo.”

Visita à Basílica de Merced – monumento histórico do Catolicismo chileno. Fiquei muito feliz nas proximidades com o que obtive como pão para o espírito e para o corpo.
Depois da visita à Feria Chilena del Libro – belíssima livraria do Paseo Huérfanos, 670; fomos a um ótimo restaurante. A livraria vale a visita. O espaço é amplo e havia um pianista tocando na entrada, próximo a sofás para meia dúzia de leitores; a livraria além de espaçosa, é bem iluminada; os atendentes são gentis e prestativos. Saí com dois livros que estavam desde ontem à procura – “Um puñado de cenizas”, antologia de poemas de Nicanor Parra (1937-2001) e “Azul” do poeta nicaraguense Rubén Darío, livro fundamental da poesia latino-americana, em bela edição da Universidad de Valparaíso. O pão corporal, após a livraria, foi-nos servido em um bom restaurante da região (Due Torri), onde se come muito bem por bom preço, mas se recomenda ao turista reservar lugares para o repasto prandial.
À tarde, fui à região de San Diego, onde há uma espécie de livreiros como os ‘bouquinistas franceses’ – à moda do Quais Malaquais, em Paris, citados nos clássicos romances franceses, com a diferença que o humor dos livreiros estava abaixo da linha do razoável. Valeu pela paisagem e por uma biografia de Santa Teresa de Lisieux que me ajudou a perdoar a má-acolhida. Sob um céu azul e próximo às torres de San Diego, contentei-me em folhear um Fray Luís de León, antes de ir para o apartamento e ver a Seleção do Brasil jogar pior dos que os meninos na cancha improvisada da praça, na manhã anterior.

Santiago de Chile, 09 e 10 de outubro de 2015 – natural ansiedade com o fato de que irei falar amanhã (10) numa universidade internacional. Há muitos anos, faço palestras no Brasil, para platéias diversas e há sempre um pouco de ansiedade, mas não como esta. Não sei o que vou encontrar, não sei o perfil do público que me ouvirá, se me ouvirá; ou, sequer, se haverá público. Acordo com essa sensação estranha de que não haverá ninguém para ouvir-me que falarei para o coordenador – que no pesadelo é uma espécie de Inspetor Geral, severo como era o professor Hegel no velho ginásio em Anápolis.

O dia amanhece frio como usual nesta viagem. No meu caderno de rascunhos (como diz o professor Olavo sobre o seu, dele, facebook), registrei: 37°F Feels Like 37° – Santiago a exigir café e cobertor de orelhas…Buenos Dias, Chile!

Das rotinas do dia, o sol foi o que mais me agradou presenciar. Viajar a dois tem o condão de aproximar ou afastar os viajantes. No meu caso, sinto-me mais próximo de minha companheira de viagens (a mesma há mais de quarenta anos). Lembro-me que numa dessas viagens (à França), tivemos uma terceira pessoa em nosso convívio e pessoa de tamanha calma e boa personalidade que não só não rompeu o equilíbrio, como serviu de ponto de apoio na extensão da viagem até o território marroquino. Tempos idos, lá vamos nós caminhando…como dizia o mago António Machado na España dos 1890 et plus…

E a mais fina das notícias e descobertas de hoje, cai do céu:
O MAIS POÉTICO dos pareceres científicos vem da NASA. Cito Mr. Alan STERN:
“Quem teria esperado um céu azul no Cinturão de Kuiper? É lindo”,
disse Alan Stern, da missão New Horizons –
pesquisador principal do Instituto Southwest Research (SwRI), em Boulder, no Colorado.
link consultado dia 09.oct-15

E fomos andando. Agora, tenho no meu telefone móvel (antes celular, hoje ‘smartphone’, no anglicismo diário!) um conta-passos que é uma coisa muito útil. Caminho muito nas minhas viagens e nunca tive idéia (ortografia antiga, por favor revisor!) do quanto caminhava… hoje, consegui um recorde (10.786 passos). De nada valeria isso, se não deixasse gravado em minhas retinas e meus sentimentos mais profundos, a alegria que o dia me proporcionou em Santiago.

A decepção com o Museu Nacional de Belas Artes foi amplamente compensada hoje, com a visita que fizemos à Catedral e ao Museu Histórico Nacional na Plaza de Armas. O lugar respira a história de Santiago e, apesar de lotado, com tantos turistas atraídos pelo sol que desfazia a friagem da manhã, tudo demonstrava uma ordem europeia ou, se preferir, espanhola e mestiça. E se todos caminhamos e ao caminhar aprendemos, como queria o poeta alemão H. Heine – “todos nós marchamos; homens e deuses; crenças, lendas e tradições...” – eis-nos, minha mulher e eu, caminhando na Santiago histórica e aprendendo.
Um guia interessante vem das páginas de um historiador que descobri quase por acaso, com meu hábito de ler os jornais locais (ou pelo menos um deles, em papel) e, agora, também via internet. O guia seguro é Alfredo Jocelyn-Holt que me chega através do tablóide “La Tercera”. O texto me atrai e vou seguindo em busca de livros do autor.

Uma observação rápida sobre o museu histórico nacional feita por minha mulher marca bem o que é a compensação completa: eis um museu agradável de se visitar. Ordenado, rico em informações e didático, o museu recebia uns dois grupos de alunos dos colégios da Capital. Ambos bem uniformizados e em trajes sociais – os meninos de gravata e paletó e as meninas, saias e também lenços a imitar gravatas… um traço bem europeu dos colegiais enriquecia a atmosfera do museu. Curiosamente, além do cão (exposto que está, empalhado) de um presidente da Nação, o museu chamava a atenção dos pequenos por um grande painel nacional no pátio interno do recinto. Os cães são personagens da cena urbana chilena. Estão por toda a parte.

Não sei desse fato senão o que me contou meu compadre (que é um Franciscano até no nome!) que estes convivem com as pessoas e as rotinas urbanas por seu grande préstimo da acuidade auditiva, que poderia prevenir (avisar com seus ganidos) a proximidade de um terremoto… Não fui conferir a história, mas o fato é que os cães são uma maioria silenciosa pelas ruas… E eis que os meninos nossos colegas de visita ao museu na manhã de 09 de outubro, paravam entusiasmados com o cão empalhado pelos milagres da taxidermia. Reabilito a história do cão, deixando com vocês o texto do website do Museu.

HISTORIA DEL OBJETO – o cão “ULK” – do presidente Arturo Alessandri (1932-1938).

El ejemplar fue preparado por el taxidermista del Museo Nacional de Historia Natural, Sr. Carlos Vergara, ayudado por su hermano Adrián Vergara, durante la presidencia de don Arturo Alessandri. Don Carlos era tío y don Adrián padre del actual taxidermista del MNHN Ricardo Vergara. Esta pieza fue una atracción de público por muchos años y se exhibía en el hall central del MNHN. En 1984 y por insistencia del Jefe del Área de Zoología, el biólogo José Yáñez, respecto a que el ejemplar tenía un tremendo valor histórico antes que biológico, el Director de la época (Hans Niemeyer) accedió a entregar el ejemplar y su correspondiente collar al Museo Histórico Nacional.
© Surdoc – Museu Histórico Nacional do Chile.

Impossível dizer que deixei os cães para trás e segui adiante, pois em Santiago, os cães seguem com os pedestres. O fato é que, finalmente, chegou a hora de encarar a Academia. Sei por informação preliminar que a universidade aqui, como no Brasil, está em mãos de uma esquerda quase furiosa e que ali se aninha, se concentra como em barricada…
Vou para a Aula Magna e me agrada o discurso de uma pessoa (cabelos brancos, um reitor?!) que denuncia o publicismo das teses, a publicação atual no mundo universitário que cresce em razão inversamente proporcional ao número de marcas e patentes. Segundo o palestrante, ao contrário dos países da Ásia que, menos preocupados na indústria da publicação de teses, ocupa-se em construir novos objetos úteis a toda a comunidade. Fico pensando no incrível número de universitários que conheço lá no Brasil e que, formados por um sistema gratuito de ensino, nunca devolveram nada à comunidade. Decido não ficar para o coquetel prometido, o ar, o clima da academia não me é acolhedor; mesmo do coordenador da viagem que resolvi fazer…

Na volta ao flat, onde estamos “morando” minha mulher e eu, falo sobre o que ouvi, fazemos uma refeição leve à base de omeletes (podemos cozinhar aqui e estocar nossa própria comida, quando conveniente). Ela concorda e ilustra meu raciocínio de apoio à tese ouvida na Aula-Magna. [Esqueci-me de fazer a inscrição ao congresso.]

Dia seguinte, ainda sob o efeito dos pesadelos sobre a responsabilidade que me pesa sobre “a palestra”, parto para a Universidade, novamente caminhando – o que me é extremamente saudável e me deixa animado…
Ao chegar encontro colegas de viagem – a Sra. S., o sr. V. e a esposa deste, mas não o coordenador.
A melhor acolhidaUSACHBetoPoesiaFaladaUSACH2
Esperamos por mais um tempo, até a sua (dele) chegada e abertura da porta da sala, onde dar-se-ia a palestra. Ufa!
Há um pequeno colóquio sobre a conveniência de adiarmos para a parte da tarde, ao que me oponho, pois não aguento de ansiedade – ter que esperar mais um turno para ministrar a ‘bendita` palestra que já me exaspera. Tenho no auditório contados sete participantes a me ouvir.

Uma rápida e nada amistosa discussão na parte da tarde do mesmo evento, convenceu-me a antecipar minha viagem a Valparaíso. Creio que o desagradável evento terminou para mim. Última providências: repasso os livros que trouxe para doação a uma instituição local (dois meus e dois da amiga romancista Clara) e me vou…
Pretendo acompanhar minha mulher em nossas caminhadas (e dependendo da confirmação, visitar uma empresa líder no setor de software aqui); e vamos de ônibus para Valparaíso.

Não foi sem aviso sobre os riscos que troquei os cães pelas serpentes:

A universidade é um centro de operação donde (a esquerda) se replica, onde ela se reconhece, onde pretende concentrar os humilhados, com o objetivo de fazer-lhes ver quão mal anda o sistema…”
(Alfredo Jocelyn-Holt, em La Tercera, oct-2015).

Valparaíso, 11 de outubro de 2015 – A viagem de ônibus de Santiago a Valparaíso e tranquila e pontual. Surpreende-me que os eventos aqui comecem no horário e que os ônibus sejam pontuais, desacostumados que estou à pontualidade em nosso país. Chegamos e vamos direto para o hotel, à beira-mar. Minha mulher tem um mal-estar que a forçou a ficar em repouso no hotel. Só a visão de nossa janela pôde amenizar o incômodo e tornar menos desagradável essa circunstância. Da janela frente ao Pacífico, ela ficava observando o mar, lendo e fotografando as diversas etapas do dia.

Enquanto repousava, visitei a casa-museu “La Sebastiana” em homenagem a Pablo Neruda. Resolvi fazer o trajeto à pé na ida, sem me dar conta do aclive que é o caminho de acesso à Sebastiana. Enquanto caminhava pelo histórico bairro da Bela Vista. Como se sabe, o comunista Pablo Neruda era um amante das propriedades. Colecionou três com os ganhos ao longo da vida: La Chascona em Santiago, La Sebastiana em Valparaíso e Isla Negra. Os amigos que me viram postando poemas de Gabriela Mistral, Miguel Arteche, Henrique Lihn ou Nicanor Parra, em mídias sociais, sempre me perguntavam:
– E Neruda? Ao que sempre respondi, ele tem células ativas ao redor do mundo que obnubliam o talento de uma míriade de grandes talentos poéticos do intelectualizado Chile…É preciso que se diga que o esguio país ordeiro ao longo da costa do Pacífico sul teve antes (em 1945) o Nobel de Literatura atribuído à poetisa-professora Gabriela Mistral, tendo esperado até 1971 para o prêmio a Pablo. Erwin Díaz em sua antologia “Poesia chilena de hoy: de Parra a nuestros dias” já adverte sobre esse sol que a tudo tenta obscurecer:

”Esta antología reúne textos de poetas que – desde el punto de vista de cronología y la hisoria literaria – comenzaram a escribirse después de Neruda, quiero decir, con su presencia – tutelar para algunos, molesta para otros, imprescindible para la mayoría – en el horizonte literario desde la Segunda Guerra Mundial hasta nuestros días.

Vicente Huidobro e eu20151013_09453420151013_09463420151013_09494320151013_095928Gatos na Sebastiana_Valparaiso20151013_102709Comer e beber na BelaVista
1) Estátua de Vicente Huidobro, poeta chileno (1893-1948); 2) Os gatos enamorados da subid à Sebastiana; 3) O casario do ‘calvário’ da Sebastiana; 4) O bairro que é também uma rota de fuga dos tsunamis guarda lugares mágicos, como a Loba; 5) Ainda e sempre os gatos “seres alados” da colina da Bela Vista’’; 6) O orgulho da varanda florida, ao longo da via Ferrari – o ‘calvário’ iluminado até a Sebastiana; 7) Pablo Neruda poeta e proprietário de imóveis; 8) Comer e beber na subida do Cerro da Bella Vista (até à Sebastiana).

A uma amiga que me encomedou um pequeno volume de poemas, emprestei este mas ressaltei que o Neruda que conheço de cor desde os meus vinte anos e dos veinte poemas de amor é hoje uma canção desesperada que não nos deixa ouvir o doce e alentado canto dos demais poetas chilenos. Trouxe-lhe um livro de  Schelling e mostrei-lhe uma foto dos livros de bolso que trouxe de uma viagem a Montevideo no final dos anos 70 do séc. xx. A indústria editorial chilena é rica, vastamente inventiva e os livros têm custo bem mais baixo do que no Brasil, mesmo os livros de arte – e não apenas porque nossa moeda chega à relação de R$ 1 para $170 em um câmbio bem favorável.

Passeando de volta ao hotel em Valparaíso e vendo as feiras livres com suas frutas e legumes expostos – donde salta a exposição quase pictórica das alcachofras, penso na frase de Maurois sobre “o doce improviso poético que o viver chileno ensina ao estrangeiro”. As cores e os cheiros se misturam ao do Pacífico, próximo ao hotel, da estação da Bela Vista sai um trem de tempos em tempos e da janela do hotel o dia se esvai como se esvai nossas vidas de seres moventes – viajantes ou sedentários. Um pássaro voa em busca de seu repouso noturno. Amanhã, voltamos para Santiago.
Voltamos de Valparaíso para Santiago de ônibus, novamente, e completamos o trecho de metrô para as últimas duas noites no Chile – dessa feita, optando por nos hospedar na parte mais moderna da Capital – Las Condes. Daí, sim, vê-se os Andes com clareza e proximidade. Há brasileiros no hotel, nem tão ruidosos mas sempre falantes em seu portunhol ininteligível ao chileno médio. Opto por falar inglês, embora leia muito bem em Espanhol, graças aos manuais de Física lidos na Porto Alegre dos meus verdes anos…
Comemos bem, lemos muito, vimos a chuva cair e apreciamos a neve sobre os Andes. Creio que é hora de voltar para casa, até porque o mal-estar de minha mulher piorou mais e nos deixou inseguros quanto ao flanar sem rumo pela Santiago ordeira e moderna de Las Condes. Na TV, a presidente Bachelet anuncia uma mudança da Constituição, os jornais debatem a gratuidade do ensino e setores diversos do país (fora da universidade) interpretam que o país está ameaçado no que seria o mais caro dos valores chilenos: a Ordem.

Cruzo os Andes numa manhã fria e sem muita névoa; de volta para casa como quem deixa para trás, com seis horas no máximo de um deslocamento aéreo, outra civilização.
As mesmas névoas do tempo parecem urdir contra a ordem do que essa sociedade chileMostra dos Livros Chile'2015na conseguiu erigir em concerto desde a fundação do país, desde as vitórias sobre o Peru, desde as visões modernizadoras e centralizadoras de Bernardo O’Higgins – que desconsolado vai morrer no país vizinho, depois de sua deposição da presidência do Chile; desde a “frágil fortaleza histórica” que se esconde atrás da cordilheira dos Andes (Jocely-Holt), embarco de volta para o Brasil, com o eco dos versos de Huidobro em meu coração e minha mente:
”Hay que poner la oreja em la tierra como los indios y oír el mundo,
oír el pulso que late en las entrañas de la tierra”

(Vicente Huidobro, cit. por Jocely-Holt em História G. do Chile, vol.I.

 

6 comentários em “Pequeno diário de uma viagem ao Chile (síntese)

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  1. Como sempre inspirador, erudito e poético este seu diário de viagem chileno meu caro Adalberto de Queiroz que aprendi a gostar em tão pouco tempo de convivência, eu que fico entregue às baratas e às óperas em minha Minas. Perdeu à cultura chilena não prestigiar sua palestra sobre nossos ilustres poetas. Neruda no Larousse francês só tem quatro linhas básicas sobre ele. Nada para falar ao certo.

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  2. Gostei muito do seu diário, de tudo, essa aventura das descobertas, confirmações e olhares, Deslocamento e visita ao nosso tempo de intolerância e patrulhamento nas universidades ao encontro das novas possibilidades, amei que tenha terminado com Huidobro, o poeta do Altazor, que é o meu Prêmio Nobel.

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