ENSAIO-Limite (1)


IMPRESSIONANTE como em minhas leituras tenho um velho hábito de pensar em círculos.

E desses círculos, saio sempre nutrido mas com uma certa fadiga.
Se e quando a leitura me agrada (em tanto e tal extensão) penso em esparramar o amor ao texto (livro, artigo) lido; mas aprendi que para refletir sobre o que se lê, é preciso tempo e um projeto contínuo de leitura e reflexão.
Duro é quando o ciclo (ou círculo) passa e a reflexão objetiva e lógica parece não vir…

O grande segredo da ação bem sucedida é o seu limite.” – ensina-me o pensador Olavo de Carvalho.

 

POIS BEM, EIS PORQUE TAIS FASES precisam ser emolduradas em seus próprios limites. Em minhas leituras foram tantas as fases quantas idades. Ventos diversos me levaram (e continuam me levando) a uma espécie de ‘rincão’, um “terrain”, donde colho algumas boas uvas e parece necessário um certo tempo para que essas se acomodem até se transformar em suco ou vinho e possa passá-las a uma garrafa e transportá-las, já consumíveis, por algum leitor ávido do fruto da videira do leitor, o outro. Busco o segredo e o limite, esperando…

LEMBRO-ME com alegria de fases de leituras antigas e essas se vão, como a água do João Leite, pois que nunca hei de considerar-me um leitor de Araguaia, Tocantins ou – suprema vaidade – um leitor amazônico.

HOUVE um tempo em que me debrucei sobre os gregos, a Eneida eu a comprei num livrinho barato dessas editoras (livro de bolso), creio que Ediouro. Eu quebrei-o em pedaços que levava comigo no trajeto até o trabalho. E assim fui substituindo os “pedaços” até o final do longo poema Virgiliano. Vieram outros da mesma safra e preço.

COM a biblioteca Pública de Porto Alegre, vieram-me os livros emprestados e lidos durante as noites frias da cidade de Dyonélio Machado (ou por onde ainda passeava o poeta-anjo e suas heras, Mário Quintana). Uma das fases mais interessantes deste período ficou-me gravada – a leitura das fantasias de J. L. Borges e seu amigo Adolfo (Bioy Casares).

JÁ ganhava alguns trocados a mais e pude começar minha coleção de livros que ia alinhando nas prateleiras de minha casa (apartamento) em Porto Alegre. Os sebos sempre foram uma fonte acessível e me deram a Comédia Humana de Balzac em estado de seminovos. Dias e noites de boa leitura. Cartas, anotações, paixão.

Minha mulher não teve dúvida, anos mais tarde, de nomear nosso lindo ‘collie’ de Balzac; a quem o amigo francês (prof M. Evreinoff), quando nos honrava com sua visita à casa do Jardim América, chamava-o por Honoré…

Comecei pensando nas leituras e na pilha de livros e nas fases para tecer-lhes a planta-baixa de minha dificuldade atual. Tenho todo o tempo do mundo para ler e não consigo palmilhar a lista interminável de livros (bons) que alinhei para a leitura, sobretudo com o apoio do curso de Filosofia que faço online.

E quando a fase de Augusto Frederico Schmidt, revisitado por seis meses, viu-se como fase passada, tenho a chance de publicar um ensaio em uma conceituada revista online, mas me sinto paralisado pela síndrome do “ensaio-que-não-sai…” 

O limite que me imponho agora é o de ouvir o ruído da ventania que me traz um dado autor (ou conjunto de autores, pois que nunca chegam sozinhos), prescrutar-lhes o sentido e a mensagem de seus (deles) livros, artigos, aulas e deixar passar um tempo, até que amadureça o bom vinho do ensaio. Ensaio que no fundo é “tentativa” de dizer algo, para além do que foi lido.

Eis um plano aceitável como limite para um leitor que tem na imortalidade posta sua esperança… E assim, o ensaio virá, digo a mim mesmo e ao amigo confrade-professor Francisco, mesmo que a fase Schmidt pareça ter visto seu (dele)

FIM.

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