Mascarada social (II)


Ainda sob os efeitos das festas de fim-de-ano, volto a Henri Bergson, para transcrever mais um trecho sobre a vida em sociedad, recordando que ele abre esse tópico lembrando que a mascarada social, advém da “sociedade fantasiada”:  “(…) o lado cerimonioso da vida social deverá, pois, conter uma comicidade latente, que só precisará de uma oportunidade para vir à luz “.
Após um lembrete do que foi o último post (I), segue-se “à comicidade derivada do automatismo” (II). Confira, prezado leitor:

(I) “Risível será, portanto, uma imagem que nos sugira a ideia de uma sociedade fantasiada e, por assim dizer, de uma mascarada social. Ora, essa ideia se forma logo que percebemos o que há de inerte, de pronto, de confeccionado enfim, na superfície da sociedade viva.

(II)“Mas ainda aqui cabe acentuar a comicidade aproximando-a de sua fonte. Da ideia de fantasia ou disfarce, que é derivada, será preciso remontar então à ideia primivitva, de um mecanismo sobreposto à vida. A própria forma compassada de todo cerimonial nos sugere uma imagem deste tipo. Assim que esquecemos a seriedade do objeto de uma solenidade ou de uma cerimônia, os que tomam parte dela produzem em nós efeito de marionetes. Sua mobilidade se regra pela imobilidade de uma fórmula. É automatismo. Mas automatismo perfeito será, por exemplo, o do funcionário que funciona como simples máquina, ou ainda a inconsciência de um regulamento administrativo que se aplica com fatalidade inexorável e é tido por lei da natureza. Há já alguns anos, um paquete naufragou nas proximidades de Dieppe. Alguns passageiros foram resgatados com grande dificuldade por uma embarcação. Alguns inspetores de alfândega, que se haviam comportado bravamente no resgate, começaram por perguntar ‘se não tinham nada que declarar’. Vejo certa analogia, embora a ideia sema mais sutil, nestas palavras de um deputado que interpelava o ministro no dia seguinte a um crime cometido na ferrovia: ‘o assassino, depois de matar a vítima, deve ter descido do trem pelo lado contrário ao da estação, violando os regulamentos administrativos.
“Um mecanismo inserido na natureza, uma regulamentação automática da sociedade, esses são, em suma, os dois tipos de efeitos engraçados aos quais chegamos (…)

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Fonte: BERGSON, Henri. “O Riso”. Martins Fontes, SP, 2004, p.33-35.

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