Alain, seu nome é melancolia


Em meio a uma semana de trabalho (ainda de reconhecimento do novo terreno comercial e de negócios) neste novo território nomeado 2012, evito o BrasilPolicialPermanente – que é o nome do noticiário de TV aberta (já abolida há tempos de minha vida) e até mesmo, de vez em quando, o rádio, tão amado: ouço MP3 e Cd´s no automóvel na longa jornada até o trabalho.
E quem ouço?
– De preferência música francesa e música italiana (ah, les cousins les italiens...) e c´est tout.
Isso quando não estou mal-humorado. Porque, se sim: só valem os eruditos e, assim mesmo, de preferência as sonatas de Mozart; de Bach; as elaborações de Monteverdi e uns poucos músicos que não me causam mal-humor (até admito, meus queridinhos da ópera, se no sangue não me faltar cafeína e se não for muito cedo).
Mas quando volto pra casa num dia bom assim, um pôr-de-sol de um dia assim, – em que não sinto úmido até os ossos – é hora de ouvir SOUCHON.
Eis meu companheiro inseparável, nesta trilha sonora da volta à casa.

Vamos combinar com você que faltou à imersão na Chanson Française, il y a quelques années, RFI ou Radio Universitária Goiânia onde mantive (por 8 anos) o “Conexão França” – o programa que trazia até os ouvintes (poucos mas inteligentes) o melhor da música francesa e européia daquela ´atualidade`.

Mas agora me ocupo de pensar sobre Le Roy de la Mélancolie. Son nom ? Alain.
Souchon, Alain. “Adolescent éternel, toujours aux aguets, toujours prêt à s´étonner, à s´émouvoir devant la beauté du monde et devant les surprises qui sans cesse s´offrent à l´homme. Adolescent il l´est par sa mélancolie, son ironie, son humour, sa façon de ne rien prendre totalement au sérieux.” (1)
E é dentro desse humor do ‘eterno adolescente Alain’ que vamos encontrar as pitadas de ironia, de um humor muito pessoal e da melancolia como traço unificador de suas melodias e letras, em sua maioria com o parceiro inseparável Laurent Voulzy.

Já disse e repito que Souchon não deve ser ouvido nas manhãs de segundas-feiras (frase de resto copiada a um comentarista da rádio Nostalgie/FR), naturalmente, porque para quem é francófono e acompanha a letra, além da melodia (e assim pode entender a tristeza que emana do coração Souchoniano); e, ele próprio (ouvinte) tem o coração sensível; mas agora falo do Souchon pra se ouvir com presteza quando o sol se põe.

Ele tem um humor diferenciado, é criativo, tem o parceiro adequado (Laurent Voulzy) para as letras –  e olha que não é nenhum P.Coelho, sorry Raulzito!).
É um sujeito a se conhecer, mesmo por aquele brasileirinho (a caminho da 5a. economia do mundo e amargando um 126º lugar no ranking do melhor ambiente de negócios no mundo), que acha que a MPB é o centro do universo – e se irrita quando vai aos States e só ouve sua música no elevador.
Souchon é capaz de rir da própria desgraça: a França perdendo espaço para os commerçants etc. Não quis ilustrar cada frase com uma canção, nem quis fazer deste post  (de 4a.-feira futebolística) uma coisa acabada sobre o cantor admirador do Abby Pierre.

Um homem capaz de fazer da Melancolia seu tema recorrente – assim definida pelo Petit Robert:
Mélancolie – n.f. 1. État de tristesse accompagné de rêverie.
Voilà, notre ami Souchon défini par la langue Française.
(trad. Melancolia –  subst. feminino em francês. Estado de alma que se caracteriza pela tristeza acompanhada de devaneios).

E em música e letra por Souchon, esta canção emocionante sobre a perda de um amor e, ainda assim, mantendo a ironia, como quem ri de sua própria desgraça.

Sous mon pull-over, pas tranquille,
Ça fait boumboum, c’est pas docile.
Elle est partie faire du voilier
Avec ce grand crétin frisé.

(Refrain)
J’ai perdu tout c’que j’aimais… (3x)
J’ai perdu tout c’que j’aimais. (2x)

Je traîne en souliers bicolores,
Paille et phosphore dans l’eau du port.
C’est une mélancolie banale,
Vodka orange et Gardénal.

(Refrain)

Tu vas pas rester là si tard,
Assis, à regarder la grande mare.
Laisse les camélias, le revolver,
C’est pas un décor bord de mer.

(Refrain)
E, finalmente, é por conta dessa canção que quase intitulei este post musical de “Vodka orange et Gardénal” – que, convenhamos, não é receita de um cristão para um estado d´alma melancólico(a).
A tout à l´heure. Beto.

+++++
Fontes: (1) CANNAVO, Richard. Alain Souchon. Ed. Club des Stars, 1987. p.5. – em tradução livre: “Eterno adolescente, Souchon está sempre alerta, sempre pronto se surpreender e se emocionar diante da beleza do mundo e diante do surpreendente que com frequência se apresenta ao homem. É adolescente por sua melancolia, por sua ironia e seu humor – sua forma própria de não levar tudo muito a sério.” (Para entender isso, se não conhece bem a música de Souchon, recomendo visitar seu site oficial. Clique sobre esse tópico e este outro que são boas amostras do senso de l’humeur Souchoniano).

2 comentários em “Alain, seu nome é melancolia

  1. Gostei de ouvir……toca o coração….
    Quando estou triste e rebelde escuto Piazzolla, a força contida em sua música me impulsiona para frente e não me deixa desistir quando as pedras no caminho, são pontudas demais e me ferem além dos pés a alma cansada.

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