Adeus, Poesia*


Jorge de Lima*

SENHOR JESUS, o século está podre.
Onde é que vou buscar poesia ?
Devo despir-me de todos os mantos,
os belos mantos que o mundo me deu.
Devo despir o manto da poesia.
Devo despir o manto mais puro.
Senhor Jesus, o século está doente,
o século está rico, o século está gordo.
Devo despir-me do que é belo,
devo despir-me da poesia,
devo despir-me do manto mais puro
que o tempo me deu, que a vida me dá.

Quero a leveza  no vosso caminho.
Até o que é belo me pesa nos ombros,
até a poesia acima do mundo,
acima do tempo, acima da vida,
me esmaga na terra, me prende nas coisas.

Eu quero uma voz mais forte que o poema,
mais forte que o inferno, mais dura que a morte:
eu quero uma força mais perto de Vós.
Eu quero despir-me da voz e dos olhos,
dos outros sentidos, das outras prisões,
não posso Senhor: o tempo está doente.

Os gritos da terra, dos homens sofrendo
me prendem, me puxam – me dai  Vossa mão.

+++

Fonte: DE LIMA, Jorge. “Tempo e Eternidade”, Obra Completa, vol.1, p.412/413. Aguilar, 1959.
Um poema assim pode ter influenciado G.Bernanos a escrever o excelente texto transcrito em “Brésil, terre d´Amitié” (La Table Tonde, Sébastien Lapaque, 2009), sobre o poeta e amigo de G.B., cuja poesia o francês conheceu na tradução de Robert Garric. O texto “Jorge de Lima” foi prefácio a uma edição em espanhol dos poemas de Jorge de Lima, sob o título “Poemas” (Oficinas Gráficas A Noite, RJ, 1939, seg. relato de Lapaque).
Com certeza, tenho que o Poema do Cristão encantava G.B. Espero encontrar poemas em francês na tradução de R. Garric e volto em breve (aliás duas coisas difíceis de se encontrar: estes poemas em francês e a tradução para nosso idioma que dizem teria sido feita por Jorge de Lima para ” Sob o Sol de Satã”, de G.B.).
Por ora, ficam essas referências que dizem provam por si mesmas que: “Que cette poésie soit chrétienne, nul ne saurait s´en féliciter plus fraternellement que moi. Elle l´est comme elle droit l´être, librement. Dieu nous garde des poètes apologistes!…” (G.B., transcrito por Lapaque, op.cit, pág. 51).

6 comentários em “Adeus, Poesia*

  1. Prezado Beto,

    como vai? Revi um filme ontem e lembrei de você. O filme se chama Les Enfants du Marais (em português, O Olhar da Inocência), de Jean Becker. Trata da amizade de homens comuns durante os anos 20, que moravam ao lado de um pântano. É um filme bastante bonito e simples, como você descreveu a poesia. A filha de um desses homens conta essa história através das lembranças infantis.

    Um abraço,

    Daniel.

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  2. Caríssimo Zadig,

    Há tempos não ando pelo mundo dos blogs, estava há muito escondida em hospitais, o que andou me fazendo um mal enorme.
    Mas…antes tarde que nunca, bom ler vc.
    Um abraço carinhoso para vc e sua família,
    Monica

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