Emily Dickinson, 22/100*


Hoje o poema de Emily que sempre transcrevo aos sábados vem acompanhado das observações da tradutora Aíla de Oliveira Gomes, retiradas do prefácio de Uma Centena de Poemas. Essas notas são a melhor resposta para o açodamento de alguns críticos que não entenderam a religiosidade na poesia de Emily.

***
“A respeito da religiosidade de Emily Dickinson já se tem dito quase tudo, inclusive se a tem negado, pois alguns poucos críticos a consideram livre pensadora. Em termos latos, Louis Martz a inclui entre os poetas da meditação, como o Keats das Odes, o Wallace Stevens da última fase; e assemelha a natureza de sua poesia à de cunho religioso, não ortodoxo, de Wordsworth e Yeats (1).

“O certo é que sua independência em relação aos cultos protestantes tradicionais da Nova Inglaterra, ou mesmo sua aversão a algumas práticas deles, nunca implicou, para Emily, em afastamento de uma doutrina cristã, de Deus transcendente, Pai, que talvez ela mesma não supusesse tão arraigada em sua alma. Não lhe custou absorver os aspectos não-sectários do próprio calvinismo, fortalecendo com eles sua atitude de renúncia e de aceitação de sofrimento, da qual nunca veio a arrepender-se. Em positivo ou negativo – muitas vezes em negativo – despontam artigos de fé, do princípio ao fim de sua produção poética. De vários poemas, não se sabe bem dizer se são simplesmente de amor secular ou se disfarçam um momentâneo desejo de místico noivado. E a respeito de alguns poucos nem cabem dúvidas (2).

“A fé religiosa que guardou se firmava no primado absoluto do espiritual; na renúncia do transitório em favor do eterno; no sofrimento como viático para o céu. Paixão, morte e ressurreição de Cristo eram dados de sua crença, principalmente depois de seu encontro com o Rev. Wadsworth. Vezes sem conta fala em paraíso.

“Imortalidade, eternidade e céu eram quase sempre entendidos ou desejados como reatamento de laços afetivos humanos e como continuidade da consciência individual – iluminada e iluminante como luz do meio-dia (Consciousness is noon). (3)
“Sem a vocação da vida unitiva e da mística dissolução da personalidade no amor divino, em que pesem seus instantes místicos, parece natural, em Emily Dickinson, como em fiéis cristãos em geral, o conceito, ou, pelo menos, o desejo de Ressurreição em termos de vida humana oitava acima – Éden sem serpente e sem queda, país do reencontro para sempre.

Forever is composed of Nows –
´Tis not a different time
Except for Infiniteness –
And Latitudes of  Home  –

O Para-Sempre é feito de Agoras
Não é um tempo diferente
Senão pela Infinitude –
E Latitudes do Lar.

“Por mais que ela flutue em formulações de céu e imortalidade, apega-se, antes de tudo, à idéia de fim da separação e fim da saudade (a consciência avivada, registrando a surpresa): Eden a´n´t so lonesome / As New England used to be. (4)

“Num poema da mocidade, ela se imagina numa simbólica ao lar e à família, que um dia se afligiu à sua espera:

Tho´I get home how late – how late
So I get home – twill compensate –
Better will be the Ectasy
That they have done, expecting me
When Night descending – dumb – and dark
They hear my unexpected knock –
Transporting must be moment be –
Brewed from decades of Agony.
Embora eu chegue à casa tarde, tarde
Chegar à casa já compensa tudo
Melhor será para eles a Alegria
Do que a que por me esperar têm entretido

Quando a noite caindo, escura e muda
Ouvirem o meu súbito batido

Que êxtase vai ser es momento

No fermento de décadas de Agonia .

“Na estrofe seguinte se lê, desse reencontro, que ele compensa “séculos de caminho“. O lar, considerava-o sagrado:
Home is a holy thing – nothing of doubt or mistrust can enter its blessed portals…Home is definition of God“(5).
“Por isso, o próprio paraíso havia de ser um Lar em outra vida, onde e quando lhe seriam restituídos os seus “deuses confiscados”, – não mais o lar em que a morte torna “longe do lar” (Home is so far from home, since my Father died, 1875).

The “life that is to be”, to me
A residence too plain
Unless in my Redeemer´s Face
I recognize your own.
…………………………………………
If  “All is possible with” him,
As he besides concedes
He will refund us finally
Our confiscated Gods.

(…)
A outra vida, para mim
Vai ser Morada sem belezas
Se eu não reconhecer a tua face
Na de meu Redentor
Se nada para Ele é impossível
Como Ele próprio admite
Então há de, afinal, restituir-me
Os meus Deuses confiscados.

“Houve momentos em que, esquecida da terra, se sonhou a dileta do Rei – preferida, não por minúcias de observância piedosa, ou por temor de castigo, mas por sua escolha do melor à custa de renúncias, toda a vida.
…………………………………………..
My second Rank – too small the first –
Crowned – Crowing – on my Father´s breast –
A half unconscious Queen –
But this time – Adequate – Erect
With will to choose, or to reject,
And I choose – just a Crown
.

“Jamais aceitou a fé bem instalada e ritualística de sua gente, mas tampouco cessou jamais de bater à porta de Deus e provocá-lo a ocupar-se dela. Se a busca falha e Deus silencia, a dúvida se instala, maldosa, e certos críticos se açodam a flagar esses desvios. Bem mais que eles, porém, ela sabia que a dúvida era quase como um corolário da fé:
………………………………………….
What merit had Goal
Except there intervene
Faint Doubt – and far Competitor
To jeopardize the gain?

…………………………………………..

“Além de poemas de dúvida, e de desesperança, o seu Deus lhe provoca também outros de queixas, recriminações e protestos, em tom desabusado, desafiador ou pungente. Mas não há um só momento de acomodado ceticismo, ou de deliberado abandono do problema religioso, que a absorve sem trégua. Mais para o fim da vida, em 1882, em versos de um coloquialismo muito moderno para a época (disciplina da emoção?), parece sentir-se deslocada, numa humanidade diminuída, porque em fé. Transparece, então, uma incofessada saudade dos ancestrais puritanos:

Those dying then,
Knew where they went –
They went to God´s Right Hand –
Tha Hand is amputeted now
And God cannot be found –

The Abdication of Belief
Makes Behaviour small –
Better an ´ignis fatuus`
Than no illume at all.

Os moribundos, outrora
Sabiam para onde iam –
Iam para a Mão direita de Deus
Essa mão está amputada agora
E não se encontra Deus

A abdicação da crença
Torna a conduta mesquinha –
Vale mais um fogo fátuo
Que nenhum meio de iluminação

(…)

+++++
Fontes e referências:
Dickinson, Emily. “Uma Centena de poemas“. Trad., introd. e notas de Aíla de Oliveira Gomes. Ed. T.A.Queiroz/USP, S.Paulo, 1985, p. 6-9
(1) Louis L. Martz, The Poetry of meditation. New Haven, Londres, Yale Univ. Press, 1954. p.324
(2) Em There is a Zone whose even Years / No Solstice interrupts, 1056 (“Há uma Região cujos Anos iguais / Nenhum Solstício interrompe”)
(3) O Para-sempre é feito de Agoras.
Não é um tempo diferente
Senão pela Infinitude e Latitudes do Lar
.
(4) (…) “O Éden não há de ser tão solitário como New England costuma, às vezes, ser” (em What is the Paradise? (215)
(5) Em Albert J. Gelpi, Emily Dickinson, the mind of the poet. New York, W.W.Norton, 1971, p. 164: “O Lar é coisa Sagrada – nem dúvidas nem suspeitas, transpassam seus benditos portais (…) O lar é a definição de Deus

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: