Emily Dickinson, 21/100*


The Brain – is wider than the Sky –
For – put them side by side
The one the other contain
With ease – and You – beside

The Brain is deeper than the sea
For – hold them – Blue to Blue –
The one the other will absorb
As Sponges – Buckets – do

The Brain is just the weight of God –
For – Heft them- Pound for Pound-
And they will difer – if they do –
As Syllable from Sound

O cérebro é mais vasto que o céu
Pois se os pomos lado a lado –
Aquele o outro contém –
Fácil – e a você também –

O cérebro é mais fundo que o mar –
Ponha-se azul contra azul –
Aquele o outro absorve –
Como a esponja baldes sorve –

O cérebro é do peso de Deus –
Sopese-os com precisão –
E vão diferir, se é o caso,
Como a sílaba do som.

Comentários de Aíla (pág. 195-6, op. cit.):
“Ilustra-se o encantamento “transcendentalista”de E.D. ante a potência inaudita da mente humana, aqui mencionada através de figura concreta, o cérebro. A identidade, assegurada por aquela consciência mental, devia ser “o presente que lhe deram os deuses quando ela era pequenina“, mencionado em outro poema. Insaciável, a mente alarga sua circunferência para abranger sempre mais, apossar-se do não-eu. Aqui se relembra uma velha balada popular inglesa “Riddles Wisely Expounded“. “Mais um teorema que um poema“, diz Anderson (Charles R. Anderson, Emily Dickinson’s Poetry – Stairway of Surprise, p.265).
A conclusão pode variar segundo a interpretação do leitor que considere maior, ou menor, a diferença entre a sílaba e o som. Enquanto o céu e o mar podem ser abarcados em sua aparência, Deus não é algo da mesma natureza; um parentético – “if they do” – pode significar “se há diferença“, ou “se há possibilidade de falar-se em diferenças“.
O original não coube táo fácil na forma da tradução, a começar pela diferença silábica de ‘brain’ e ‘cérebro. Novamente se metamorfoseia o ‘common measure’, agora em 9-7-7-7 sílabas. As rimas se arranjaram como foi possível.”

Eu, de minha parte, pensei neste poema por um longo tempo, na linha do que havia lido nas memórias do Papa Bento XVI, sobre “uma lenda, segundo a qual Santo Agostinho, meditando sobre o mistério da Trindade, viu na praia uma criança brincando com uma concha, com a qual ela tentava jogar a água do mar em um pequeno buraco. Então lhe teria sido dito: “assim como este buraco não pode conter a água do mar, a tua inteligência tampouco pode abranger o mistério de Deus”.  Assim, a concha me lembra meu grande mestre Agostinho, me lembra o meu trabalho teológico, me lembra a grandeza do mistério que ultrapassa todo o nosso saber“, conclui Ratzinger.

+++
(*) Fontes: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas” . Tradução Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Editor/Edit. Usp, 1985, pág. 90/91; p.195/196.
Ratzinger, J. (Papa Bento xvi). “Lembranças da minha vida: vol.1 (1927-1977). S.Paulo, Paulinas, 2006. Trad. Frederico Stein, pág. 137.

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