Rio, 4a.-feira de chuva e resignação


Chove, chove… Nem mesmo a madrugada calma, escondida em sua capa de frio, conseguira esconder a chuvinha e a denunciava com um martelar incessante em minha janela neste quarto de hotel em que me estabeleci pra passar 1/2 semana aqui no Rio.

Desço cedo, como de costume, para tomar o café-da-manhã e as notícias sobre o trânsito constatam o caos estabelecido e o provam com inúmeras câmeras urbanas da prefeitura e os trabalhos que interditam um túnel. Muita enxurrada e confusão no tráfego pela cidade afora.
Preparo-me para sair com vagar, enquanto folheio O Globo. Entre as comezinhas rusgas entre a polícia e os promotores, a manutenção da ordem e os impeditivos recentes, a cidade continua operando milagres para continuar funcionando debaixo de tanta água. Um paulistano típico resmunga ao celular, à espera de um táxi, que será um dia perdido, porque “o Rio não funciona com chuva” (mas é um temporal, penso, atencioso aos táxis que se tornam raros naquele horário). Enfim, chego à empresa a ser visitada, depois de o velho táxi ter provado sua vocação de barco…
Há duas pessoas ausentes da minha reunião, porque ficaram retidas em casa, com o Rebouças interditado.
– Sim, vi de manhã, comento com as outras duas, que um monte de terra se acumulara à noite e outro, ruía em frente às câmeras de um repórter que cobria os trabalhos de manutenção do túnel, logo cedo. Os cariocas, penso, têm uma natural paciência com tantos eventos difíceis que a vida urbana parece ao visitante de tão longe (Goyaz ainda é muito longe…penso, menos do que nos tempos do Bugre do chapéu de anta, mas ainda é muito longe, como dizia o cronista Rubem Braga). Eu, que tenho não só a nostalgia do interior mas, sim, a própria marca original do interior marcada no meu sangue, me sinto mais animado a enfrentar a metrópole praiana (sem direitos à praia, ó dó!) debaixo da chuva, para seguir cumprindo a rotina de compromissos diante do exemplo de paciência (com as intempéries naturais e nem tão naturais, como a violência urbana) que essa boa gente do Rio tem no DNA…

À noite, um jantar entre amigos promete me recompensar dos malabarismos sob a chuva persistente desta meia jornada de uma quarta-feira de temporais no Rio.
Ontem, como se sabe, fui à Tabacaria e entre um charuto e um Merlot chileno, pensei que fui injusto com Green – o pobre cãozinho de Jackson é comparação melhor do que tachar logo “o desfecho de Mont-Cinère é ruim”. Eu refaço a frase para o desfecho da tragédia é triste, mas não é mal escrito. Fica um amargo que completa a idéia de Green sobre os dois fatores que movem o livro:

– A obsessão do frio (o frio real do inverno no casarão em que se passa a ação no romance somado ao frio nas pessoas) e a persistência assombrosa da purificação pelo fogo, como forma de depuração do pecado que o inferno de Mont-Cinère nos faz antever nas edições atuais em que se sabe desde logo que o casarão da família Fletcher haveria(á) de se queimar ao final. A avareza real e a avareza afetiva associadas para gerar um clima de isolamento que só pode transformar o ambiente em um pré-inferno para as pessoas que o habitam.
Faço justiça, pois, em meio ao tamborilar da chuva na minha janela ao ritmo que Green impõe ao seu monte de cinzas que merece sim o epíteto de “inferno gelado” que lhe deu o editor brasileiro na edição referenciada. Em tudo diverso deste meu sonhado paraíso úmido e aquoso. A cidade parece derreter debaixo de tanta chuva…mas, enfim, sempre vale a pena, quando a alma não é pequena.
+++
Cit.: “Mont-Cinère“, Ed. Guanabara, RJ, 1986, trad. Vera Azambuja Harvey.

2 comentários em “Rio, 4a.-feira de chuva e resignação

  1. Querido Amigo,

    Você acabou de sair, começou a chover forte e vim ler seu post. Seu novo espaço é lindo!

    Não vou comentar seu post pois já o fizemos aqui em casa. Só quero, novamente, agradecer o lindo livro do Raimundo Castro Maya e o prazer da sua visita.

    Um abraço,

    Laura
    +++
    Ma chère amie.
    Tudo ótimo. Obrigado pelo jantar.
    Não esperava que o presente se transformasse em troca pelo C.G.Jung.
    Amitiés,
    Beto.

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