Um post à procura de uma velha senhora


Não pretendo falar de Dürrenmatt, de Pirandello, nem de Bachelard, le pauvre: um simples carteiro com texto de grande beleza, mas fogo fátuo; penso em Pascal, um texto às vezes árido, mas de grande verdade.

Não era ele o tipo que diz (como eu penso agora): bem, agora vou escrever um post, ou como se dizia no seu tempo “une pensée” (com todo respeito, só um francês para pensar que o mar e o pensamento possam ser femininos!). A verdade é que ninguém hoje pensa para escrever um post. Eu mesmo, confesso, sacrifiquei por muitas vezes, essa ilustre senhora ao cometer um post.

Segundo o Robert, La pensée, n.f., em primeira acepção é: “ce qui affecte la conscience; ce qqn pense, sent, veut. Ou em 2.Activité de l´esprit, faculté ayant pour l´objet la connaissance … esprit, intellingence, raison; entendement…*

Então, devo pensar no post como uma possibilidade de conhecimento. No que se dá a conhecer (EU) e no que busca conhecimento do Outro (TU). Mas, eis-nos, aqui, em pleno ´mar do conhecimento compartilhado`, digitando bobagens quando um Universo inteiro espera que atuemos como agentes de La Pensée.

Não que não goste de me divertir.
E até mesmo assim, La Pensée pode ajudar. É figurinha carimbada quando o leitor quer se divertir intensamente. Está provado pela Associação dos Humoristas Ingleses que as melhores piadas cobram um pedágio interessante (e com bônus de devolução) a La Pensée do leitor (e do escritor). Há casos registrados que César Miranda, Alexandre Soares Silva e Nélson da Praia, apesar de não confessarem a mesma crença, sempre pagaram pedágio à ilustre senhora.

O tempo todo me exaspero quando textos religiosos em cultos, missas e encontros de casais são externados (quase dizia expelidos, mas “há quem ouça o sermão assim como ouve as vésperas”) sem um requisito completo de Madame La Pensée. Ao ler blogs, então, escolho com um filtro enorme os que prestam devoção ou pelo menos têm uma irmandade com esta ilustre senhora (Pascal diz: “Formam-se o espírito e o sentimento pelas conversas. Estragam-se o espírito e o sentimento pelas conversas” – ou pelos blogs que se freqüenta… diria eu).

E eu, me pergunto: o que tenho feito para salvar esta senhora da agressão em praça pública. Como naquele filme famoso dos que adoravam um apedrejamento, às vezes freqüento blogs em que só me sinto no papel do espectador culpado, torcendo para que o bloguerro seja apedrejado – um tipo comum que se vê em muitas filas dos bancos públicos – afinal, votaram no presidente e se sentem obrigados a manter a conta – e ali vou eu, como um judeu na alfândega, um árabe na fila do vendedor de armas, como um mau poeta atrás de metáforas… um frequentador da Sociedade da Libertinagem do Espírito. Sem chances, pois, para Mme. La Pensée.

Por herança, não tenho eu nenhuma chance avec cette dame.

Mas, eis, que ao ler, ao transcrever, talvez consiga um mérito de imaginá-la bem próximo de mim e de meus amigos e essa confraria pode, talvez, salvar-me da mesmice dos que a ofendem em praça pública. A fé há de tornar essa senhora em nossa aliada para provar pelo menos que nossa Fé não é vã e que a Esperança pode durar um minuto apenas mas pode ser moto de salvação.

Afinal, acho que até meu amigo CM concordaria que “zombar da filosofia é, em verdade, filosofar“.
+++++
Fonte: Pensamentos, Blaise Pascal, Abril Cultural, 1984.
* Pensamento, s.m.,1. aquilo que afeta à consciência; aquilo que alguém pensa, sente, deseja. 2. atividade do espírito, faculdade que tem por objeto o conhecimento…espírito, inteligência, razão, entendimento…etc.

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