Das coisas como entidades sentimentais (3)


Vai longe o tempo em que minha consciência me aconselhava a não continuar deitando migalhas de tartines e gotas de Bordeaux sobre o teclado de meus seis leitores e me dedicar a outros temas, menos gastronômicos.

Há quase um ano atrás, eu e minha mulher nos demos o direito de viajar para a França (num roteiro que incluia Paris, Provence – Aix e arredores, Bordeaux e de novo Paris, donde fomos a Roma por dois dias). Esqueci, pois, por alguns dias as agruras do comércio e me entreguei somente a me deleitar com a paisagem francesa, visitando amigos, saciando-me com o sabor de andívias e os cheiros inesquecíveis das boas cozinhas de la Douce France, sob um delicioso clima do outono francês. A memória da viagem rendendo, ao fim e ao cabo, apenas dois ou três posts e uma série de fotos publicadas por minha mulher no Multiply.

Quem me socorreu num desses posts foi Jose Ortega y Gasset, pois, de um de seus volumes antigos me surgiram graciosas idéias sobre a saudade de coisas passadas (sentimento que só os falantes da língua portuguesa nomearam tão especificamente):

– “La vida es un viaje, decian los ascetas, y corrigiendo la puntería disparaban sus armas como dardos hacia la eterna posada…”

Por que eleger a viagem como metáfora substancial da vida inteira? – indaga o mestre espanhol, levando-nos a considerações sobre a fugacidade, caráter essencial da vida e próprio também de nossa relação com as coisas. Ao mesmo tempo em que dizemos a uma paisagem, a um acontecimento ou ao convívio com um amigo dileto: ah, que bom, já é hora, aí está… pensando: meu Deus, como tais coisas são agradáveis, prazeirosas. Ou no planejamento da viagem, dizemos: daqui a 2 dias viajaremos, em breve estaremos em Paris (ou Roma)… também assim, logo, logo, temos que preparar os lábios para pronunciar “ya se van, ya se van…” – tudo já se foi… como passou rápido o tempo dessa viagem.

E o coração também, passado um ou muitos anos, há de estar preparado para lembrar de coisas que se foram, dos anéis que se perderam, com o que se deleita ou se reconforta.

Uma carta de Van Gogh para seu amado irmão, Theo, lida alhures e que tanto me impressionou sobre o tema da viagem e especialmente da viagem para a Provence (região de minha viagem no outono passado), nesta hora exata em que decido escrever sobre o que passou, é poeira de neurônios perdidos com o tempo que se (es)vai…

A passagem de Ortega com as férias em outra província (suas sonhadas férias nas Astúrias, fugindo à correria de Madrid) – essa sim, ao alcance da mão na estante abarrotada de livros fora do lugar (situação que mais incomoda a minha mulher e à empregada do que a este leitor):

(….)

Nem tão simples como pensava: os dois velhos e amassados volumes de Ortega se perderam na desordem das estantes.

E só me resta a memória, como a pletora do sentimento que n´alma despertam as coisas vistas: as coisas simples que me rodeiam, esses mapas em que a rota vem marcada com um lápis de cor vermelha, ou este rosário em metal (será de prata?) que me lembra Roma (e doado por um amigo agnóstico), ou essa miniatura de um músico de rua em New Orleans, ou esse livrinho com o título Malagar, de onde exalam tantas lembranças do filho e do pai Mauriac e da propriedade hoje transformada em museu… ou um pensamento sobre um texto, um sabor, um cheiro que vem à mente quando fumamos um charuto em nosso pátio sob um céu azul de Matisse em pleno sol do cerrado goyano… ah! as coisas são entidades sentimentais que nos prendem ao círculo mais íntimo do que somos. Viagens não são senão fazendas no ar, no mais denso ar que é o que se respira dentro da gente.

5 comentários em “Das coisas como entidades sentimentais (3)

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  1. Fiquei profundamente triste com a morte de Bruno Tolentino, Zadig…

    Um abraço

    +++++
    Alma, ma chère amie.
    Bom saber que você está melhor.
    Bruno é desses poetas que temos para sempre.
    Fiquei triste com o desaparecimento do Bruno e do Gerardo Mello Mourão.
    A poesia perdeu dois grandes mestres que se expressaram mais em nossa língua mas que também eram respeitados no exterior.
    Amitiés,
    Beto.

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  2. EXCELENTE_TODO O TEXTO_! Mas destaco esta parte final:

    “Nem tão simples como pensava: os dois velhos e amassados volumes de Ortega se perderam na desordem das estantes.

    E só me resta a memória, como a pletora do sentimento que n´alma despertam as coisas vistas: as coisas simples que me rodeiam, esses mapas em que a rota vem marcada com um lápis de cor vermelha, ou este rosário em metal (será de prata?) que me lembra Roma (e doado por um amigo agnóstico), ou essa miniatura de um músico de rua em New Orleans, ou esse livrinho com o título Malagar, de onde exalam tantas lembranças do filho e do pai Mauriac e da propriedade hoje transformada em museu… ou um pensamento sobre um texto, um sabor, um cheiro que vem à mente quando fumamos um charuto em nosso pátio sob um céu azul de Matisse em pleno sol do cerrado goyano… ah! as coisas são entidades sentimentais que nos prendem ao círculo mais íntimo do que somos. Viagens não são senão fazendas no ar, no mais denso ar que é o que se respira dentro da gente.”
    **************************UM ABRACO, CARISSIMO AMIGO!
    Heloisa
    ********

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  3. … comprado no Vaticano de uma linda balconista com a maior insegurança, falando meu italiano, que é algo realmente particular e único no planeta.

    Não lembro do preço, só da confusão. Mas acho que não é de prata, não.

    Lembrança de outra coisa como entidade sentimental. A saída da loja. A Catedral e o Museu Vaticano à esquerda, com suas Pietà e Sistina, o almoço maravilhoso que tive duas horas depois. Viajar é tudo, é como a vida.

    Um grande abraço, meu amigo e obrigado pela sutil referência.

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  4. Zadig, como é bom sentar aqui nesta pedra e lhe ouvir falar, com esta sensibilidade característica que há tempos não visitava.

    Obrigado pela dica, mandei o endereço do Simplicíssimo depois, viste?

    Também corrigi uma falha no meu Blogroll: coloquei seu link lá! Que coisa! Como sou atrapalhado! Agora podemos nos ver com mais freqüência novamente.
    +++++
    Meu REInehr.
    Obrigado por compartilhar.
    Sim, faz tempo que não nos visitamos um ao outro com tanta frequência.
    Me alegra a frequência. E os seus projetos, sempre tão intensos, me animam.
    Amitiés,
    Beto.

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  5. Ah, os prazeres da culinária aliados aos das viagens, regados com gotas de Bordeaux… o que há de melhor? Bom, só mesmo tudo isto com uma boa companhia e alguns livros de poesia…

    Abraços,

    +++++
    Obrigado Cristiane por seu comentário.
    VI em seu blog que fala de V de Vendetta. Muitos dos meus leitores mais queridos amam cinema.
    Por certo, devem comentá-la em breve.
    Amitiés,
    Beto.

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