Das coisas como entidades sentimentais (2)


A rotina diária deste dezembro tão célere me aconselha a não continuar derramando migalhas de tartines e gotas de Bordeaux sobre o teclado de meus seis leitores. Abandono temporário das crônicas com seu sabor de andívias e com cheiros das boas cozinhas da Douce France por onde circulei neste outono passado. Dedico-me, pois, a dizer-lhes duas ou três palavras sobre as coisas da viagem e uma específica sobre os chapéus.

Não vai longe o dia em que um senhor comprava verduras na mesma banca que eu, usando begala e me transmitiu aquele sentimento inominável que começa pela observação visual e vai ganhando as fímbrias do espírito para ali se debruçar com o nome de saudade. Sim, senti, como dois dos meus seis leitores seriam capazes se lembrar: saudades de um chapéu panamá que jamais usei. Na verdade, deveria nomear o sentimento como saudade do que não fui.

Longe vai o dia em que olhava com respeito um senador da República pousando no Salgado Filho, com um belo chapéu e um sobretudo. Era o Senador Brossard (seria mesmo senador àquela época do início dos anos 70?) que me chamava a atenção pela elegância de seus ternos, pela redondilha maior de seus discursos e por uma certa dignidade que o chapéu parecia conferir ao polítido. Longe me parece o dia em que sob o chapéu se carregava decência e dignidade na vida dita pública, pois que, pra mim a vida é única.

Mas deixemos de lado o vestuário e nos ocupemos com o espírito. Saímos de Aix-en-Provence na manhã de uma segunda-feira, depois de sermos surpreendidos com o anúncio de nossa hotelier, na hora do check-out, de os amigos já haviam quitado nossa conta de hotel, no belo balneário de Sausset-les-Pins. No domingo, havíamos almoçado com os amigos Jean e Marie na varanda de uma casa em obras, a metros do Mediterrâneo, próxima a uma grande usina da EDF. Na segunda, surpreenderam-nos com o presente da estadia e um chapéu.

Brindados com um céu de um azul sem nuvens, ali ficamos horas em torno de um Vaqueyras, entre amigos e nossas esposas, em fraterna amizade. E foi por amar os chapéus que deixei aflorar na conversação meu sonho de ter um panamá… À saída, Jean Madar me presenteou com seu velho panamá, que passei a orgulhosamente usar desde logo.

Eu tenho uma coleção de bonés e só um chapéu, por coincidência um chapéu que um amigo músico me presenteou em meio à militância de meu esquerdismo juvenil. Este outro vinha, pois, na idade da razão e das mãos também de um ex-quadro comunista francês, hoje aos 60, empresário e avô cioso de seus afetos e seus relacionamentos – que são, como ele mesmo diz “contas de adição, jamais de diminuição…”

Enquanto não cedo à tentação de alivanhar uns versos sem rima, as idéias esvoaçavam sobre a minha cabeça como se fossem “livros, esses insetos vegetais” corro para o meu Ortega e graciosas idéias afloram sobre o sentimento que só os falantes da língua portuguesa podem nomear.
“La vida es un viaje, decian los ascetas, y corrigiendo la puntería disparaban sus armas como dardos hacia la eterna posada…
– Por que eleger a viagem como metáfora substancial da vida inteira? – indaga o mestre espanhol, para responder sobre a fugacidade, caráter essencial que é próprio de nossa relação com as coisas. Ao mesmo em que dizemos a uma paisagem, a um acontecimento ou uma amizade, já vêm, já vêm… temos logo que preparar nossos lábios para pronunciar: “ya se van, ya se van…

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