Das coisas como entidades sentimentais (1)


Algum leitor remanescente, de minha temporada no Verbeat, deve se perguntar porquê dessa republicação.
– Ocorre que perdi o backup que me foi gentilmente cedido pelos Verbeaters e assim só me restam alguns post daquele período, que vou tentar recuperar pouco a pouco, em meu velho computador. Portanto, ao republicar esses artigos, faço um acerto de contas rilkeano que faz justiça à memória de meus velhor posts perdidos, que são como o caderno de poemas perdidos do passado, esquecido alhures, n´algum canto ou num banco de ônibus, ou n´alguma gare distante…

Esvazio meus bolsos após um dia de fadiga comercial e, lentamente, descalço os pés dos sapatos e conquisto meus chinelos, enquanto o boné me espia do armário (à espera de um fim-de-semana, tão carente quanto meu cão). Sobre a escrivaninha as moedas – essas mesmas que me acompanharam ao longo do dia, e me “escolheram” entre milhões de pessoas a quem poderiam ter acompanhado, entre mil bolsos pelos quais passarão, depois de mim; sobre a escrivaninha repousam a gravata e o cinto, a carteirinha, os papeizinhos de lembrete (sempre carreguei dezenas de papeizinhos e listas que inventariam meu dia com a memória das frutas), o talão de cheques, os documentos do carro, o telefone móvel (que já ninguém põe a tocar para me dar um afeto)
– “As coisas são tão intensas“.

Ainda hoje um senhor usava bengala comprava verduras na mesma banca que eu e senti saudades de um chapéu panamá que jamais usei. Saudades do que não fui.
A escova de dente que daqui a pouco usarei, estou certo mexerá com o nervo sensitivo de minha alma, mas me dará certa paz na higiene diária, só superada pela água quente descendo sobre meu corpo que envelhece (é preciso lembrar-se da advertência da esposa: “água quente demais estraga o cabelo, mas minhas juntas cansadas não reclamam de nada”). Hoje queria ter tomado o bonde número 5 e andando sem destino, chegado alhures, passado pelas coisas como elas passaram por mim.

Enquanto tento conciliar sono e repouso, as idéias esvoaçavam sobre a minha cabeça (“livros, esses insetos vegetais“, decreta o poeta-amigo, C.M.) e concluo que é impossível dormir…
Sobre a cômoda outra infinidade de coisas me espiam esperando calor e toque: o rosário, a pena antiga e estilizada, as flores de madeira e ao lado delas os lápis (árvores desencarnadas e, no entanto, cheias da vida do negro grafite), o papel da caderneta entreaberta (e essa minha letra irreconhecível amanhã), o sonífero em estado de deleição.

O copo d´água cristalina brilha, quando acendo o abajur que deita luz sobre o meu cansaço da jornada. Espero insone que o dia estenda seu lençol branquíssimo sobre minhas angústias. Por ora, apenas observo todas essas coisas como entidades sentimentais e a elas me apego como mamífero às tetas da mamãe noite.

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