O fenômeno de Hitler não se esgota em sua pessoa. Seu sucesso deve ser situado no quadro geral de uma sociedade arruinada intelectual ou moralmente, no qual figuras que em outros tempos seriam grotescas e marginais podem ascender ao poder público por representarem formidavelmente o povo que as admira. Essa destruição interna de uma sociedade não terminou com a vitória dos aliados sobre os exércitos alemães na II Guerra Mundial, mas continua até hoje. Devo dizer que a destruição da vida intelectual na Alemanha em geral e nas universidades em particular é fruto da destruição perpetrada sob seu regime. O processo ainda está em curso e não é possível entrever seu fim, de sorte que consequências surpreendentes são possíveis. O estudo do período (hitlerista) por Karl Kraus, e especialmente sua arguta análise do detalhe sujo (aquilo que Hannah Arendt chamou de `banalidade do mal´) tem grande importância para nós hoje, pois é possível encontrar fenômenos correlatos na sociedade ocidental, embora não ainda, felizmente, com os efeitos destrutivos que resultaram na catástrofe alemã.

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Reflexões Autobiográficas“, Eric Voegelin, pág. 41, Ed. ÉRealizações, 2008.
(Qualquer semelhança entre Brasil e Alemanha é mera coincidência)

Leio com vagar as “Reflexões Autobiográficas“, de Eric Voegelin, tentando extrair a máxima compreensão que me permita depois entrar mais preparado no universo deste grande pensador.

Devemos essas “Reflexões” ao talento de um admirador de Voegelin, Ellis Sandoz, que em 1973, gravou com o mestre várias entrevistas sobre temas relevantes para o estudo que viria a ser o livro “The Voegelinian Revolution: A Biographical Introduction” (A Revolução Voegeliniana: uma Introdução Biográfica).

Eric Hermann Wilhelm Voegelin nasceu em Colônia, na Alemanha, em 1901 e faleceu em Stanford, CA (EUA) em 1985. Sua formação acadêmica se dá na Universidade de Viena, onde torna-se professor associado de ciência política na Faculdade de Direito austríaca. Demitido pelos nazistas em 1938, Voegelin foge para a Suíça, escapando da Gestapo e emigra para os EUA, onde ensina na Universidade Harvard e na Universidade Estadual da Louisiana (1942). Volta à Europa como professor da Universidade de Munique (1968), onde fundou o Instituto de Ciência Política.
Retorna definitivamente aos EUA em 1969, onde ensina por cinco anos (1969-74) como “Distinguished Scholar” na Universidade de Stanford. Entre os seus principais livros, destacam-se os títulos: “A Nova Ciência da Política” (1952), “Ordem e História” (1956-57), “Anamnesis” (1966), “The Ecumenic Age” (1972-73), entre outros.

Segundo o autor-entrevistador, as Reflexõessão o melhor ponto de partida para o estudante que não tenha familiaridade com os escritos de Voegelin”. Para mim, têm sido este “caminho valioso para entender Voegelin nas leituras que pretendo fazer no futuro, certo de que o livro é “uma introdução à vida e ao pensamento deste que foi um notável scholar e talvez o maior filósofo de nosso tempo“.

Anotações de leitura:
“Em meu tempo de estudante e ao longo de toda a década de 1920, ou mesmo até que se fizessem sentir os efetios do nacional-socialismo, no início dos anos 30, Viena conservava um horizonte intelectual vastíssimo e era internacionalmente reconhecida como pioneira em muitas áreas do conhecimento.”

[Vários nomes citados por Voegelin são notáveis outros me são totalmente desconhecidos: Ludwig von Mises, economista; os teóricos do Direito Hans Kelsen (redator da Constituição Austríaca e seus discípulos Alfred von Verdross e Adolf Merkl; os físicos Ernst Mach e Scchlick e Wittgenstein; o historiador Alfons Dopsch; na história da Arte destaca Max Dvorák e Strzigowski; na música, Egon Wellesz, entre outros – A Viena onde viveu E. Voegelin era um mundo de uma efervescência cultural que raramente ocorreu na história. O berço de S. Freud, Schnitzler, Hofmannsthal, Wittgeinstein, Mahler, Klimt, Rilke etc. tinham "o rigor e a profundidade intelectual como norma” – o que geraram futuros círculos de homens-prodigios – modelos para futuros cículos intelectuais em que se reproduz “essa sofisticação nos meios formais e a ousadia na análise dos problemas filosóficos de primeira grandeza”, citando como exemplo a Escola de Chicago e a de Frankfurt].

“Inscrevera-me – diz Voegelin – como estudante de pós-graduação que me levaria ao Doutorado em Ciência Política. A decisão de cursar esse doutorado foi em parte econômica e em parte questão de princípios. No que se refere ao aspecto econômico, eu era muito pobre, e um doutorado a ser concluído em três anos me parecia definitivamente atrativo. A questão de princípios era uma nebulosa, mas já então pujante intuição de que eu embarcaria em uma carreira científica… a escolha da ciência política, ademais, foi determinada pela qualidade do corpo docente, que incluía figuras de renome como Kelsen e Spann”. (p.21)

”Depois de concluir o doutorado em ciência política, matriculei-me em cursos de matemática na Faculdade de Filosofia, especialmente com Furtwaengler sobre teoria das funções, mas acabei estudando esses assuntos apenas superficialmente, pois simplesmente, não conseguia me entusiasmar por problemas matemáticos.” (p.22)

Na Universidade de Viena, o jovem Voegelin se associa a grupos de interesse na instituição de seminários e pelas amizades pessoais. Esse relacionamento gera o que chamou de Geistkreis (Círculo Espiritual ou Intelectual) e explica: “tratava-se de um grupo de jovens que se reunia mensalmente… um dos membros do grupo dava uma palestra sobre tema de sua escolha enquanto os outros faziam picadinho dele. Por se tratar de uma comunidade civilizada, havia a regra de que o anfitrião do encontro não podia ser o palestra, pois era permitido à dona da casa participar e não seria nada cortês fazer picadinho de um cavalheiro na presença de sua esposa.”

Vários dos participantes deses grupos de estudo tinham atividades comerciais e financeiras paralelas aos estudos, ou seja, o vínculo com a Academia não os afastava das atividades práticas do dia-a-dia, ou como ressalta Sandoz: “ter uma atividade intelectual não excluía uma atividade prática que fosse materialmente lucrativa. A idéia de que todo intelectual deve apenas se preocupar com assuntos ‘contemplativos’ e nunca com feitos mundanos – p. ex. a sobrevivência financeira – é uma tolice digna de quem vive numa torre de marfim”. (p.25)

Quando jovem, nas férias após o exame de ingresso à universidade (Abiturium), Voegelin diz ter estudado O Capital (Marx), e declara: “induzido obviamente pela onda de interesse pela Revolução Russa, estudei O Capital, e sendo um completo ingênuo nesses assuntos, eu acreditava em tudo o que lia, e devo revelar que, de agosto a quase dezembro de 1919, fui marxista. Perto do Natal eu já estava cansado do assunto, pois cursara, neste meio-tempo, disciplinas da teoria econômica e história da teoria econômica e aprendera o que estava errado em Marx. Depois, o marxismo nunca foi um problema para mim.” [E.V. foi talvez o mais efêmero dos marxistas do mundo intelectual de todo o séc.XX]
”Esse problema de descartar uma ideologia por percebê-la indefensável cientificamente foi constante nesses anos. Muito importante para a formação de minha atitude em relação à ciência foi o contato precoce com a obra de Max Weber… A influência duradoura de Max Weber é resumida assim por Voegelin: 1) Seus ensaios sobre o marxismo coroaram minha rejeição do marxismo como ideologia indefensável cientificamente; 2) As palestras de Weber em (Ciência e Política: duas vocações) deixaram claro que as ideologias são os chamados ‘valores’ que toda ação deve pressupor, mas que, em si mesmos, não são proposições científicas.
”A questão se tornou crítica com a distinção que Weber faz entre Gesinnungsethik e Verantwortungsethik “– esse dois palavrões alemães são “usualmente traduzidos por ética da intenção e ética da responsabilidade”.
”Weber estava do lado da ética da responsabilidade, isto é, de assumir a responsabilidade pelas consequências dos próprios atos. Assim, por exemplo, se um sujeito estabelece um governo que expropria os expropriadores, é ele o responsável pela miséria que causou às pessoas expropriadas. É impossível desculpar as consequências maléficas de atos morais pela moralidade ou nobreza das intenções do agente. A intenção moralizadora não justifica a imoralidade da ação”.

“Mantive como firme legado esse insight fundamental, embora o próprio Weber não tenha analisado suas implicações por completo. Ideologia não é ciência, e os ideais não substituem a ética”. (p.32).
Segue…
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Fonte:Eric Voegelin: Reflexões Autobiográficas“, Ed. É Realizações, SP, 2008, Introdução e Notas de Ellis Sandoz, Trad. Maria Inês Carvalho, Notas de Martim Vasques da Cunha.

A word is dead
When it is said,
Some say.
I say it just
Begins to live
That day.

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Uma palavra morre
Quando é dita –
Dir-se-ia –
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia.

——
Fonte:”Emily Dickinson: Uma Centena de Poemas”, ed. T.A.Queiroz - Editora da USP, Tradução Aíla de Oliveira Gomes, S.Paulo, 1984.

Pré-História

Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.

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Fonte:  “Murilo Mendes, Antologia Poética”, pág. 19. Editora Fontana/Mec, 1966 (devo este maravilhoso volume à generosidade de meu amigo Rodrigo Pedroso).

Sobre o cadáver do Herói

O argumento é velho: nossa falta de auto-estima. O fato é ancião: morrem os homens e morrem os acima da média.

A diferença é que pessoas acima da média, deixam um traço de luz quando falecem.

Há muito tempo atrás, li sobre um sargento morto no Zoológico de Brasília em meio ao ocaso da regime autocrático dos militares. Um texto de um jornalista comum: Lourenço Diaféria - de quem não me lembro ter lido senão este texto antológico, levantando fatos incomuns para a época. “Herói. Morto. Nós” é uma crônica antológica que a Folha preservou em seu acervo com as virtudes e até os erros de ortografia (a grafia da época, 1977). É uma crônica datada?

- Talvez, mas útil para o diálogo que pretendo nesta nota.

Veja a crônica no site da Folha.

Agora que perdemos o diplomata brasileiro Vieira de Mello, querem alguns que pensemos na perda de um herói.

E há os que comparam esta perda à da vida de Ayrton Senna. Diferentes scripts para desempenhos extraordinários. A grande imprensa (como dizíamos nos tardios ´70), se apressou a traçar o perfil do ilustre Sérgio Vieira de Mello.

Quando se conhece um pouco mais sobre a sua vida, vê-se que ele é feito de um barro um pouquinho melhor do que o nosso (como diz meu amigo César Falcão, o outro César. É. Sou amigo dos Césares).

Coube apenas pelo destino tornar-se emblemático do momento que vivemos. É homenageado em todo o mundo. Não vejo porque não nos unirmos às homenagens. Se o Brasil tivesse uma chance (não esta de homenagens póstumas), definitivamente rídicula esta chance única (e perdida) de termos um novo Oswaldo Aranha - a morte de um profissional com o perfil do diplomata Vieira de Mello.

Por ser meu filósofo predileto um humorista de plantão, deve ele ter a fórmula certa para dizer: todas as nações em todos os tempos precisaram de heróis, pela simples razão de que esta carência não é brasileira - é humana.

Só não posso concordar com uma certa linha de argumento que coloca no mesmo saco ou baú de ossos, os restos mortais desses dois brasileiros, sob a ótica do pobre-país-que-precisa-de-heróis. Os humanos, precisamos de heróis para despertar em nós o que temos de deuses (ver a nota final de autoria de José Nivaldo Cordeiro).

Mas o que vejo nestes dois brasileiros de fibra, diferenciação, grandeza, vejo em brasileiros vivos: em Amyr Klink e José Midlin, para ficar em poucos exemplos de tantos outros que não vou nomear pela emoção ao correr do teclado.

Por certo, são eles de um barro bem melhor do que o meu e desses críticos de primeira hora, que subestimam a importância dos heróis (penso agora mesmo numa carta do sargento que deu o último socorro ao diplomata sob os escombros e afirmou que ele até o último momento de sua vida foi um gentleman,um homem que se preocupou com os Outros - o tal gênero humano, do que Brecht provavelmente entendia apenas na dimensão do cômico).

 

O que mais me chama a atenção na biografia destes brasileiros e que chamo de coincidências é a incrível vocação para a excelência: busca de boa formação, destino para fazer melhor etc. etc. Tudo que me inspira a viver um dia-a-dia mediano com a cabeça nas estrelas. Meus pés de barro me põem na devida dimensão do homem comum, mas não tenho a miopia dos que não enxergam (ou cuja soberba não permite ver) a grandeza dessas pessoas. Há muitas; soube de operários simples que foram capazes de grandezas (lembro-me sobretudo do incêndio do Edifício Joelma em SP, na década de 70).

 

- Observem o olho direito dos dois personagens. A testa franzida. A tristeza do sorriso à la Mona Lisa. Traços que mostram um pouco de sua vontade de realizar algo acima da média. É tudo. Pense e dê sua opinião.

 

Vieira de Mello, a foto oficial no website da ONU e Ayrton Senna, um herói nacional.

Sérgio Vieira de Mello homens com perfil acima da média.

 

Post Post:

Interessante refletir sobre o arquétipo descrito por José Nivaldo Cordeiro sobre o herói brasileiro típico e faltante no antológico “Em Berço Esplêndido“, de Meira Penna sob o caráter brasileiro. Veja:

Miguel de Unamuno dizia que o Cristo espanhol é moribundo, em agonia no limiar da morte. Como será o nosso?

Tendo a pensar que está na nossa psiquê o Senhor morto e crucificado. Se nos debruçarmos sobre a religiosidade popular como, por exemplo, Antonio Conselheiro em Canudos e Tiradentes, veremos que essas personalidades são uma forma de projeção de Cristo. O sacrifício do Conselheiro era prefigurado desde o início da sua jornada, na medida em que o povo o via como o próprio Messias encarnado. Aqui importava o cadáver do herói sacrificado.

Tiradentes não seria um mito político tão importante se não tivesse a associação do seu sacrifício com o de Cristo.

A sua representação quase sempre mal disfarça a sua imagem como um Cristo substituto. A história do Padre Cícero de Juazeiro vai na mesma direção. O seu santuário sagrado de adoração dos fiéis é o seu túmulo e o morro onde está a sua estátua tem o sugestivo nome de Horto…” (José Nivaldo Cordeiro).

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